sábado, 25 de julho de 2015

Um passeio pelos mercados de Londres

Outrora, importantes centros económicos e sociais das povoações, alguns mercados e feiras têm vindo a transformar-se em pontos obrigatórios de visita referenciados nos roteiros turísticos das cidades. E alguns são, na verdade, imperdíveis. Mais ou menos elaborados, ricos ou pobres, os mercados acabam por ser uma das faces mais genuínas dos lugares.

A cada cidade os seus mercados e em Londres nem sabemos por onde começar. Espalhados pela cidade, com características muito próprias, os mercados de Londres têm cada um a sua própria realidade o que contraria a máxima de “quem vê um vê todos”. Aqui, vê-se um e queremos ver mais.

Nós andámos por alguns…

CAMDEN TOWN – Não se trata de um mercado mas de vários espalhados ao longo do canal construído no século XIX para unir o GrandJunction Canal em Paddington com o rio Thames em Limhouse. Os antigos armazéns portuários e os estábulos onde se faziam, antigamente as mudas de cavalos são agora restaurantes, bares e lojas.



A primeira vez que por aqui andei já foi há alguns anos, bastantes o suficiente para ficar surpreendida com a descontração e o ambiente excêntrico que ali se vivia. Como em Roma sê romano acabámos sentados na berma do passeio a comer comida chinesa, com pauzinhos, ao lado de um casal “punk” que ia já bem adiantado na cerveja. Esta descontração e excentricidade continuam a ser o denominador comum de Camden Town


As pessoas, as lojas, as bancas, a profusão de cores, de raças, de idiomas (não esqueçamos que só em Londres falam-se cerca de 200 idiomas, desde o Bengali, Urdu, Árabe, Chinês...), fazem de Camden Town um dos espaços mais procurados de Londres, não só pelas compras, mas também pelo ambiente que aqui se vive. Estamos perante o mercado mais eclético de Londres.


segunda-feira, 13 de julho de 2015

Hitchin, a cidade dos tempos medievais

Depois de vários convites aceitámos a hospitalidade dos nossos amigos. Na altura eles viviam numa pequena localidade a cerca de 60 Km de Londres, no típico english countryside.

Levávamos um pequeno roteiro de viagem que, rapidamente, cresceu com as preciosas dicas que, só alguém que lá vive poderá dar. E o facto de estarmos a 30 minutos, de comboio, de Londres não nos causou qualquer constrangimento, antes pelo contrário, permitiu-nos conhecer locais que, se estivéssemos sedeados em Londres não teríamos conhecido.

Não teríamos, por exemplo, conhecido Hitchin, uma localidade mais antiga que a velhinha Idade Média. Já em 673, se falava desta pequena cidade como tendo sido o local escolhido pelo bispo, para o primeiro encontro das igrejas cristãs anglo-saxónicas. E daí não mais parou.

O seu epíteto “cidade mercado” marcou-a desde sempre acompanhando o seu florescimento, ao longo do séculos, como posto comercial e, com a chegada dos caminhos de ferro como um importante posto de transação de cereais, principalmente milho, chegando mesmo a ter uma “Corn Exchange” para regular o comércio.


Interessante, também, é a ligação de Hitchin ao comércio da lavanda. Introduzida e utilizada pelos romanos como um antisséptico natural para as feridas de guerra, esta planta, foi um dos primeiros perfumes a serem usados em Inglaterra. Pensava-se, na altura, que as características desta planta protegiam as pessoas de serem infetadas por doenças contagiosas que, então, dizimavam a população, o que levou à expansão do seu cultivo.

A cidade tornou-se no século XVI num dos principais produtores de lavanda do país e aqui foi criada a mais antiga companhia farmacêutica do reino Unido que se dedicava á destilação da lavanda para fins medicinais. O produto obtido ganhou tanta notoriedade que a própria rainha Victória vinha a Hitchin adquirir esses óleos essenciais.


Hitchin poderá ser considerada uma cidade dormitório de Londres mas, desengane-se quem pense encontrar uma localidade deserta, sem comércio e sem vida própria. A sua praça principal “Market Place” é exemplo disso. O seu movimento começa desde logo cedo com turistas e habitantes a ocuparem as esplanadas e a percorrerem as lojas.



Inúmeras lojas de artigos em segunda mão enchem as ruas. Desde roupa de marca, assinada por estilistas famosos, a quadros, mobília, calçado, livros (paraíso para os leitores compulsivos que aqui encontram as últimas novidades a 1, 2 ou 3 £, apenas). 


Enfim, mais do que lojas de artigos usados, estas casas parecem mais centros de trocas. De tudo um pouco, basta procurar que se encontra!


Depois das lojas é tempo de passear pelas ruas e admirar os fabulosos edifícios, alguns remontam, mesmo, ao século XIV.








O interior dessas casas é aquilo que imaginamos. Genuinamente de época, disso não há dúvida!



Um único reparo. As lojas fecham às 17H00, por isso, a melhor altura para se visitar Hitchin é de manhã. Depois, é apanhar o comboio para Londres e aproveitar a tarde na capital.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Sainte-Mère-Église o bastião da liberdade

Quando se chega ao largo da igreja de Saint Mère l’Église, deserto naquela altura, nada faz pensar que esta e agora pacata cidade foi cenário de sangrentos combates durante a Segunda Guerra Mundial. Reduzida a ruínas valeu-lhe a coragem dos seus habitantes que, junto com os aliados combateram o exército alemão.

Esta pequena cidade, na Baixa Normandia, é considerada ter sido a primeira localidade a ser libertada pelos aliados, depois de dias de intensos confrontos que se seguiram à batalha nas praias da Normandia.

Antecedendo a madrugada do dia 6 de junho de 1944, dia previsto para o desembarque das tropas aliadas na costa da Normandia, milhares de paraquedistas das tropas aerotransportadas aliadas saltaram atrás das linhas inimigas. A sua missão era proteger os locais considerados estratégicos até à chegada das tropas vindas das praias. Alvos fáceis, milhares de homens foram abatidos antes de chegarem ao solo.

John Steele, foi um dos paraquedistas americanos que escapou para contar a sua história. E que história! Nessa noite, a cidade encontrava-se sob um forte e intenso ataque alemão e os sinos da torre da igreja tocavam a repique para alertar a população. Depois de lançado, o paraquedas de John Steel foi levado para junto da torre sineira onde acabou por ficar preso e pendurado num dos pináculos. Os alemães julgaram-no morto o que lhe terá salvo a vida. Foi depois feito prisioneiro mas conseguiu escapar e participou ainda num último ataque para conquistar a cidade. 

Em sua homenagem vê-se, na torre da igreja, um manequim vestido com o uniforme americano e pendurado num paraquedas. John Steele, durante toda sua vida, nunca deixou de regressar a Saint Mère l’Église e foi considerado cidadão honorário da cidade.



John Steele - imagem retirada da wikimedia.org

Vitral no interior da igreja de Saint Mère l’Église dedicado à memória dos homens que, na noite de 6 de junho de 1944, foram lançados de paraquedas para libertar a cidade.



Muitos dos habitantes de Saint Mère l’Église eram crianças na altura mas recordam-se bem desse tempo. Nós não vamos deixar nunca de lembrar e de mostrar ao mundo que nos lembramos, disse-nos um habitante da cidade referindo-se ao Museu Airborne, dedicado à memória de todos os combatentes e sobretudo aos paraquedistas, os grandes herois dessa madrugada de junho.

No museu podem ver-se imensas peças históricas da época, fotografias, recriações de cenários de combate, armamento e conhecer histórias de quem viveu, na primeira pessoa, a guerra. Muito interessante e elucidativa toda a coleção é um fiel testemunho dos acontecimentos do DIA D.





O museu tem uma sala de cinema onde passam documentários e filmes sobre o que se passou. Nessa tarde (sorte) passou “O dia mais longo”. o melhor filme, até hoje, apresentado sobre o dia do desembarque e o que mais fielmente recria toda a ação. 

Realizado em 1962, por Ken Annakin foi vencedor de dois óscares e é protagonizado por Robert Mitchum, Richard Burton, John Wayne, Rod Steiger, Robert Ryan e muitos outros. Perfeito para se compreender a complexidade da Operação Overlord, nome de código para os acontecimentos que marcaram o princípio do fim da guerra e da queda do regime nazi.









Percorrer os 80 Km da costa da Normandia que foram o palco do desembarque aliado é reviver o dia 6 de junho de 1944 e os dias que seguiram, vezes sem conta. Por todo o lado memoriais, museus, lápides, ruínas. 



A praia de Utah foi a primeira, o quilómetro zero da invasão e o local mais a ocidente onde desembarcaram os soldados da 4ª Divisão de Infantaria dos EUA.



Olhar a praia, deserta, o silêncio apenas quebrado pelo barulho das ondas a rebentar na praia e imaginar, apenas imaginar…!



As baterias costeiras alemãs são agora sentinelas silenciosas num campo verdejante. A paz a não deixar esquecer os tempos de guerra. 

“Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”
 by Winston Churchill



E foi tempo de regressar às nossas praias. 
Ficaram os lugares e as pessoas. Trouxemos as recordações.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Os ventos e as marés do Mont Saint Michel.


A  expetativa era grande. A visita ao Mont Saint Michel era um dos pontos altos da viagem e, apesar de o tempo não ajudar, pois estava frio, vento e chuva (abril não é, definitivamente, o mês mais indicado para visitar esta região de França) valeu (muito) a pena.

Mas com pena, fiquei eu, pelas fotos… Pelo resultado, confirma-se que a fotógrafa não se encontrava num pico de inspiração por aí além e o nevoeiro e a chuva também não foram grandes aliados. Ficam as imagens possíveis!



Inicialmente habitado por druidas que lhe deram o nome de Monte Tombe por ser usado como jazigo funerário dos antigos celtas, este ilhéu rochoso ganhou uma aura mística que perdura até hoje. Local de interesse esotérico para os ocultistas que o consideram um Centro Cósmico de conhecimento humano na terra é, também, um objeto de estudo, inesgotável para os historiadores.

Por interesse histórico ou por simples curiosidade o Mont Saint Michel tornou-se, ao longo dos tempos, num dos monumentos mais visitados de França e ponto de romaria para centenas de pessoas que diariamente atravessam os seus portões.


Mas ao entrar na fortaleza temos de nos abstrair da multidão que enche as ruas estreitas, das lojas de souvenirs, dos cafés e restaurantes e do barulho constante em locais que deveriam ser de contemplação. Se o conseguirmos, o Mont Saint Michel não nos dececiona. Caso contrário, acredito que as expetativas poderão sair goradas.



Restaurante de Mère Poulard onde, dizem, se come a melhor omolete do mundo. Talvez seja verdade, mas não creio que valha a pena só pelo tempo que se está à espera de ser atendido. À Mère Poulard pertence, também, um dos quatro hotéis existentes dentro das muralhas. Pela experiência, talvez seja interessante lá ficar hospedado, apesar do preço elevado.




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Conta a história, que o arcanjo São Miguel terá aparecido em sonhos ao prelado do santuário que, outrora, aqui existia e a quem pediu a construção de uma igreja em sua honra. Assim foi cumprido e depressa o novo santuário dedicado a São Miguel se tornou num local de peregrinação* e num importante e poderoso centro espiritual e intelectual, cuja influência se espalhou por todo o Ocidente.

Situado estrategicamente na fronteira entre a Normandia e a Bretanha, o Monte foi cobiçado por Príncipes e Reis e durante a guerra dos cem anos tornou-se um símbolo da identidade francesa pela sua heróica resistência aos ataques das tropas inglesas.



Foram necessários quase seis séculos para transformar um rochedo granítico na espetacular obra arquitetónica que hoje podemos admirar. As grandes construções começaram durante os séculos XI e XII, quando o mosteiro viu nascer à sua volta uma pequena cidade fortificada a que se dá o nome de "bastide". 






Nos baluartes, esta enorme roda de madeira movida pela força dos prisioneiros fazia subir e descer uma corrente que puxava uma plataforma que transportava material e comida para dentro da fortaleza evitando, desta forma, a abertura dos portões e entradas indesejadas. 


No século XIII, foi construído, no topo da abadia, um conjunto gótico de seis salas ocupando dois edifícios de três andares, que ganhou o nome de "A Maravilha" devido à riqueza e complexidade da sua arquitetura.



Hoje, visitar a Abadia beneditina é percorrer o melhor dos estilos carolíngio, românico, gótico flamboyant e e clássico. 






O claustro da abadia e os seus jardins. Finalizado em 1228 a riqueza da sua decoração e a sua arquitetura única marcam o apogeu do estilo gótico normando. 





A Sala dos Hóspedes, assim chamada por ser o local de acolhimento dos peregrinos. Esta sala levava à sala de trabalho dos monges, o "Scriptorium",  local de criação dos famosos manuscritos do Mont Saint Michel, hoje preservados na Biblioteca Municipal de Avranches.


O refeitório dos monges. O desenho do chão ao estilo românico torna imponente esta sala já de si grandiosa.


Entre o céu e a terra, no ponto mais alto da igreja, o triunfo do arcanjo sobre o dragão, imagem que simboliza no cristianismo medieval a luta do bem contra o mal.




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O Mont Saint Michel é um lugar de ventos e marés. Continente na maré baixa transforma-se numa ilha durante a maré cheia, ligada a terra por uma estrada construída num nível mais alto para evitar as águas.

Palco das maiores marés da Europa, ali o mar percorre 10 km e sobe 15 metros à "velocidade de um cavalo a galope", segundo dizem os populares.




Durante a maré baixa há a possibilidade de fazer um passeio pelos prados organizado por guias experientes, seja pelo prazer de andar sobre as areias (em alguns locais movediças) ou para observação da fauna e flora únicas da zona. Nem o espírito da aventura nos convenceu a aderir a uma caminhada de duas horas, descalços e a cada passada a enterrarmo-nos até ao joelho na areia (lodo) molhada. Escusado será, ainda, dizer que estavam cerca de 10º….



Se não se conhecer a zona, toda e qualquer aventura a solo deverá ser evitada. A presença de helicópteros de resgate na zona, durante a enchente da maré, atesta que apesar dos avisos ainda há quem se arrisque.


Ao final do dia, deixámos o Mont Saint Michel, debaixo de uma chuva miudinha, tal como quando entrámos. Talvez para a próxima haja sol!!


* Durante a idade média faziam-se as “Peregrinationes Michaelis”. Os peregrinos usavam a “pelerina”, uma capa vermelha, apoiavam-se num bordão de madeira com um nó ao centro e carregavam um alforge de couro. Eram cinco os montais ou “caminhos do paraíso” que levavam ao Monte. As oferendas a São Miguel consistiam numa concha de molusco ou em objetos de pano ou estanho a representar o Arcanjo, cozidos na roupa e que eram as “insígnias da peregrinação”